segunda-feira, 15 de junho de 2026

MARIA DO CARMO: A CANDIDATA QUE NÃO PRECISA SE APRESENTAR !

 


Por Fábio Maia

Há candidatos que chegam a uma eleição precisando construir reconhecimento. Há candidatos que chegam precisando construir bases. Há candidatos que chegam precisando construir credibilidade. Maria do Carmo não precisa construir nenhuma dessas três coisas. Ela já tem todas. E é exatamente por isso que sua candidatura a reeleição para a Alepa em 2026 merece uma análise que vá além do obvio.

Esta é a sétima edição desta série sobre os candidatos que disputarão vagas no legislativo pelo Oeste do Pará em 2026. Analisei Chapadinha, Adriana Almeida, Henderson Pinto, JK do Povão. Todos têm em comum o fato de que precisam, em maior ou menor grau, construir ou ampliar seu eleitorado. Maria do Carmo é a exceção. Ela não precisa construir. Precisa manter.

E manter, neste caso, é uma tarefa mais complexa do que parece.

Uma trajetória que é história em Santarém

Maria do Carmo Martins Lima nasceu em Santarém em 6 de janeiro de 1961. Promotora de Justiça do Ministério Público do Pará de 1990 até sua aposentadoria em 2020. Professora universitária de Direito Internacional na UFPA campus Rondon. Militante do PT desde 1994.

Em 1996, disputou a prefeitura de Santarém pela primeira vez, ficando em segundo lugar. Em 1998, foi eleita deputada estadual pelo PT do Pará. Em 2000, disputou novamente a prefeitura. Em 2002, foi candidata ao governo do Pará, chegando ao segundo turno com mais de 850 mil votos. Em 2004, foi eleita prefeita de Santarém com 45,16 por cento dos votos, tornando-se a primeira mulher a governar democraticamente a terceira maior cidade do Pará. Reeleita em 2008 com 52,81 por cento dos válidos.

Essa trajetória já seria suficiente para colocar qualquer político no rol dos nomes históricos de Santarém. Mas há um dado nessa história que vai além dos números eleitorais: Maria do Carmo governou Santarém por dois mandatos como promotora de Justiça licenciada, e seu segundo mandato foi questionado no Supremo Tribunal Federal. O STF, por seis votos a quatro, decidiu que ela podia continuar. Poucos políticos do interior do Pará têm na trajetória um episódio que chegou a Suprema Corte do país e saiu vencedor.

Em 2012, ao final do segundo mandato como prefeita, se desfiliou do PT para concluir a carreira no Ministério Público. Em marco de 2020, já aposentada, voltou ao partido e se candidatou novamente a prefeitura. Perdeu o segundo turno para Nélio Aguiar por 59,22 por cento a 40,78 por cento. Em 2022, foi eleita deputada estadual com 43.255 votos, a terceira mais votada do PT no estado.

O ativo mais raro da política: base eleitoral fiel

Se há um dado que define Maria do Carmo como candidata, é a natureza da sua base eleitoral. Em todas as eleições em que disputou, desde 1996, ela sempre teve um núcleo de eleitores que não muda de posição independentemente do que aconteça no campo político ao redor.

Esse eleitorado é, em sua maioria, militante ou simpatizante do PT, trabalhadores da educação e da saúde pública, movimentos sociais, organizações comunitárias e uma parcela expressiva de eleitoras mulheres que se identificam com a trajetória de Maria como a primeira prefeita da história de Santarém. Não é um eleitorado fácil de mobilizar, mas também não é fácil de dispersar. Ele não vota por simpatia passageira ou por cabo eleitoral de bairro. Vota por convicção.

Em números: 43.255 votos em 2022, sendo ela a segunda mulher mais votada de Santarém para o estadual naquele ciclo — com 18.810 votos na cidade (43,5% do total) e 24.445 votos distribuídos pelo interior (56,5%). Com uma rejeição de 15 por cento, segundo a pesquisa GPO de dezembro de 2025, o maior índice entre os principais candidatos locais. Essa rejeição reflete o perfil ideológico declarado do PT em um município majoritariamente conservador. Mas ela não é nova, não cresceu, e não impediu que Maria fosse eleita em 2022. É um teto, não uma ameaça.

O mandato como deputada estadual – o que foi construído

Maria do Carmo iniciou o mandato na Alepa em fevereiro de 2023 com um perfil de trabalho que reflete sua trajetória: legislativo voltado para direitos sociais, saúde pública, educação e defesa dos trabalhadores. Sua presença no plenário e em comissões é constante. Não é uma deputada de holofote, mas de processo legislativo.

Um dado concreto do mandato: participou ativamente da articulação de emendas para a saúde de Santarém, incluindo a inauguração de uma nova UBS no Santarenzinho, registrada em suas redes sociais recentemente. Pequeno, comparado com os milhões que circulam pelo federal. Mas consistente com seu perfil de atuação: próxima do território, com entrega visível na cidade que a elegeu.

Outro dado relevante: ao final de 2024, o prefeito Zé Maria Tapajós, ao ser empossado, agradeceu publicamente o apoio de Maria do Carmo durante sua campanha. Esse detalhe diz muito sobre o campo político de Santarém — e ganha ainda mais significado quando se sabe que Carlos Martins, irmão de Maria do Carmo e ex-vereador do PT, é o vice-prefeito eleito na chapa de Zé Maria. E que Everaldo Martins, também irmão dela, é o atual secretário municipal de Saúde. O apoio ao MDB não foi apenas político — teve retorno institucional concreto. Em um município com campo político tão fragmentado, essa capacidade de construir pontes fora da própria base ideológica — e consolidá-las com presença na gestão — é um ativo de campanha real e raro.

A reeleição – o desafio que a base fiel não resolve sozinha

Com 43.255 votos em 2022 e base fiel consolidada, Maria do Carmo parece estar em posição confortável para a reeleição. E está, em vários aspectos. Mas há um elemento no cenário de 2026 que complica essa leitura simples.

O tabuleiro do estadual em Santarém em 2026 está mais competitivo do que estava em 2022 em termos de candidatos com real potencial de eleição. Em 2022, vários nomes de Santarém disputaram a Alepa – entre eles Joao Pingarilho (28.239 votos), Adriana Almeida (31.205 votos, sendo 12.289 em Santarém), Zé Maria Tapajós (32.492 votos, sendo 19.949 em Santarém) e Celsa Brito, esposa de Nélio Aguiar, que obteve 38.285 votos, dos quais 26.076 em Santarém – o maior resultado individual de qualquer candidato de Santarém ao estadual naquele ciclo. Apenas dois foram eleitos: Maria do Carmo e Josué Paiva. Para 2026, a diferença não está no número de candidatos que disputam, mas no número de candidatos com condições reais de eleição: Maria do Carmo, Josué Paiva, Joao Pingarilho, JK do Povão e Nélio Aguiar. Em 2022, apenas dois conseguiram. Josué pela sua capilaridade e votos da igreja. E Maria, pelo eleitor fiel e partidário do PT. Em 2026, são cinco. O eleitorado de Santarém não cresceu na mesma proporção.

A matemática é simples: se os mesmos 190 mil votos validos de Santarém são disputados por cinco candidatos com potencial real de eleição em vez de dois, a média de votos por candidato cai sensivelmente. Para Maria do Carmo — que em 2022 obteve 18.810 votos em Santarém (43,5%) e 24.445 no interior (56,5%) — essa fragmentação local representa um risco menor do que parece. Sua capilaridade fora de Santarém é um amortecedor real. Ainda assim, qualquer queda em Santarém reduz a margem de segurança.

Há um segundo elemento: Josué Paiva. Em 2022, ele teve apenas 3.604 votos em Santarém, com o grosso da votação em outros municípios. Em 2026, estabeleceu domicilio eleitoral na cidade, conta com a rede da Assembleia de Deus local e com seu filho David Paiva consolidando presença política em Santarém. Uma parte do eleitorado progressista que em 2022 votou em Maria pode, em 2026, ser disputada por um candidato evangélico com perfil de serviço comunitário, como Josué.

O PT e o quociente – o ativo que a base não vê

Há um aspecto da candidatura de Maria do Carmo que seu eleitorado raramente considera, mas que é crucial para sua eleição: o desempenho coletivo do PT no Pará.

Em 2022, o PT elegeu quatro deputados estaduais no Pará, com votação coletiva robusta. Maria do Carmo foi a terceira mais votada do partido no estado. Em 2026, o PT caminha para um ciclo em que o campo progressista deve manter sua representatividade, especialmente com o governo Lula ainda ativo como referência para o eleitorado petista. Isso garante que a máquina do partido opere em favor de Maria, com estrutura de campanha, fundo eleitoral e capilaridade estadual que candidatos de partidos menores não tem.

Em termos concretos: Maria do Carmo pode ser eleita mesmo que sua votação individual caia ligeiramente em relação a 2022, desde que o PT mantenha ou amplie sua votação coletiva no estado. E o inverso também é verdadeiro: uma queda forte na votação coletiva do PT no Pará pode colocar em risco candidatos que individualmente tenham votação razoável.

O veredicto analítico

Maria do Carmo é a candidata com a trajetória mais longa e densa desta série. Trinta anos de vida pública, dois mandatos como prefeita, uma passagem pelo STF, dois mandatos não consecutivos como deputada estadual, e uma base eleitoral que sobreviveu a todas as mudanças do campo político de Santarém. Não é pouca coisa.

Para 2026, sua posição é de incumbente com base consolidada em um campo mais disputado do que estava em 2022. Os riscos são reais, mas gerenciáveis: a fragmentação dos candidatos de Santarém pode reduzir sua votação individual, e a concorrência de Josué Paiva no mesmo território comunitário merece atenção.

O que diferencia Maria do Carmo de muitos dos outros candidatos desta série, é algo que pesa na escolha do eleitor: experiência. Ela já foi a principal liderança política de Santarém. Já governou. Já chegou ao STF. Já perdeu e voltou. O eleitorado que a acompanha sabe exatamente quem ela é e o que ela representa. Isso tem um valor eleitoral que as pesquisas de intenção de voto capturam apenas parcialmente.

A reeleição é provável. Mas não é automática. E numa eleição proporcional com cinco candidatos competitivos disputando o mesmo território, não há resultado garantido.

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