Com altos níveis de mercúrio no sangue, santarenos estão sob risco de efeitos tóxicos

quarta-feira, agosto 23, 2017 0 Comments

Décadas após o auge da atividade garimpeira na região do Oeste do Pará, um estudo realizado na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) traz à tona, novamente, o grave problema da exposição da população ao mercúrio. Dessa vez, o foco gerador não é mais o garimpo, durante muitos anos considerado o principal responsável pela contaminação do meio ambiente por mercúrio. Atualmente, atividades relacionadas ao uso do solo, como desmatamentos, queimadas e a construção de hidrelétricas, são as que mais contribuem para a contaminação.
O mercúrio (Hg) é um metal pesado, considerado dos mais perigosos para o meio ambiente e para a saúde humana devido à sua alta toxicidade. Altos níveis de mercúrio no organismo humano podem causar diferentes danos à saúde. O sistema nervoso central (SNC) é um dos mais afetados pela presença do metal, mas fígado, rins, os sistemas cardiovascular, gastrointestinal e imunológico também podem ser prejudicados. Dentre os principais sintomas, estão: tremores, insônia, perda de memória, alterações neuromusculares, dores de cabeça e déficits de desempenho em testes de função cognitiva.
Dos efeitos causados ao SNC, um dos mais graves é sobre mulheres grávidas e seus bebês. “Ele pode afetar diretamente os fetos, porque atravessa a placenta. Mesmo em casos de mães que apresentem sintomas mínimos, as crianças podem nascer com problemas neurológicos ou motores”, ressalta a bióloga Heloísa de Moura Meneses, responsável pelo estudo.
Em sua tese de doutorado, defendida em 2016 no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Natureza e Desenvolvimento (PPGSND), Heloísa avaliou os níveis de concentração de mercúrio no sangue de pessoas que vivem na região de Santarém. Ela analisou a exposição dessas pessoas ao metal através da ingestão de peixes contaminados com a substância.
Diferentemente da exposição a que estavam sujeitos os garimpeiros, chamada de ocupacional em decorrência do ambiente de trabalho, a exposição pelo consumo de peixes é considerada ambiental e, nesse caso, obedece ao ciclo do mercúrio na natureza. Os solos amazônicos são naturalmente ricos em mercúrio. Através dos incêndios florestais, por exemplo, o mercúrio é liberado na atmosfera, tornando-se disponível para a contaminação. Com a ação do vento ou através da erosão do solo, favorecida pelos desmatamentos, esse mercúrio contamina águas e vegetações dos rios. Na água, sofre metilação, transformando-se em metilmercúrio, uma das formas mais nocivas da substância, capaz de se acumular nos organismos. É dessa forma que, através da cadeia alimentar, o metilmercúrio atinge os peixes e, consequentemente, os seres humanos.
Metodologia – Em seu estudo, Heloísa caracterizou o perfil epidemiológico de 144 pessoas de ambos os sexos, com idade entre 18 e 81 anos, residentes na zona urbana de Santarém e na comunidade ribeirinha de Tapará Grande, localizada às margens do rio Amazonas. Escolhidas aleatoriamente, as pessoas responderam a um questionário em que informaram seus hábitos alimentares. Além disso, foram coletadas amostras de sangue de cada indivíduo. “Trabalhamos com a matriz sangue, que é diferente do cabelo. O sangue dá uma noção da exposição mais recente, atual. O cabelo mostra uma exposição de longa duração”, explica a pesquisadora.
Após a coleta, a bióloga dividiu os participantes em dois grupos, de acordo com os hábitos de consumo de peixe. Os que declararam comer a proteína três ou mais vezes na semana formaram o grupo de alta frequência. Os que comiam peixe no máximo duas vezes por semana foram incorporados ao grupo de baixa frequência. “A maior parte das pessoas se encaixou no grupo de alta frequência, quase 78% dos entrevistados”, destaca.
Prof. Dr. Luís Reginaldo (2º à esquerda) coordena a equipe do Laboratório de Genética e Biodiversidade, onde foi desenvolvida a pesquisa.
Resultados da Pesquisa – Dados do estudo mostram que pessoas que informaram consumir peixe frequentemente possuem níveis de mercúrio mais elevados que as de baixo consumo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera exposto o indivíduo que apresenta níveis de mercúrio no sangue acima de 10μg/L (microgramas de mercúrio por litro de sangue). “Cerca de 65% dos participantes apresentaram níveis de mercúrio acima de 10μg/L, ou seja, a grande maioria está exposta. O grupo de alto consumo apresentou uma média de 30μg/L, enquanto o outro grupo apresentou, em média, 6μg/L. É uma diferença bastante significativa”, avalia Heloísa, destacando que houve casos de indivíduos com até 180 μg/L de mercúrio no sangue.
Apesar de a OMS estabelecer o limite de 10μg/L, a pesquisadora ressalta que há órgãos que recomendam níveis bem mais baixos de mercúrio no sangue. “Na verdade, não há limite considerado totalmente seguro para a saúde humana diante da exposição ao mercúrio. Não há um nível exato que seja responsável pelo aparecimento de sintomas ou problemas de saúde. Ou seja, mesmo níveis baixos podem causar danos à saúde”, enfatiza.
Os participantes da pesquisa relataram a ocorrência de vinte sintomas relacionados à exposição por mercúrio. Dentre os indivíduos com níveis de mercúrio acima de 10μg/L, os sintomas mais citados foram: dores musculares e articulares, dor de cabeça, câimbras musculares, diminuição da acuidade visual e desconforto gastrointestinal.
A professora salienta que é importante avaliar diferentes tipos de variáveis que possam explicar as diferenças de suscetibilidade de alguns grupos à exposição mercurial. Por isso, o estudo levou em consideração diferentes fatores ambientais, epidemiológicos e genéticos. Ficou evidente, por exemplo, que os homens apresentam níveis médios de mercúrio mais alto que as mulheres (30,4μg/L e 15,6μg/L, respectivamente) e que a presença do metal no organismo aumenta com a idade, devido ao acúmulo ao longo dos anos.
Além de idade e sexo, Heloísa considerou, geneticamente, as mutações num grupo de genes da família da glutationa – genes que regulam o sistema de defesa antioxidante e os níveis de mercúrio no organismo. A glutationa é um tripeptídeo que facilita o transporte do metal pesado no corpo humano e ajuda a combater o estresse oxidativo. Esse estresse resulta de um desequilíbrio entre a produção de radicais livres e a capacidade de defesa antioxidante das nossas células. O desequilíbrio causa um excesso de radicais livres, podendo provocar danos celulares e moleculares. “Ele também tem sido associado ao câncer e a males como o Alzheimer e Parkinson”, realça Heloísa.
Em seu trabalho, a pesquisadora conseguiu identificar que a ausência de um dos genes avaliados no DNA humano deixa os homens mais vulneráveis a altos níveis de mercúrio. “A deleção do GSTM1 aumenta a suscetibilidade dos indivíduos masculinos a apresentar taxas altas do metal”, evidencia.
Conclusões – Os dados mostram que a população de Santarém está ambientalmente exposta ao mercúrio através do consumo frequente de peixe. “Na população ribeirinha, que tem uma dieta quase que exclusivamente baseada no peixe, já esperávamos esses resultados. O que nos chamou a atenção foi o fato de os indivíduos da área urbana também apresentarem níveis altos de mercúrio. Esses resultados são importantes porque, por muito tempo, a população de Santarém deixou de ser estudada por não ser considerada uma área sob risco da exposição mercurial”, avalia a docente.
O estudo mostra que a população está sob o risco dos efeitos tóxicos da exposição mercurial e que essa continua sendo uma grave questão de saúde coletiva na região. “A identificação destes fatores permite o planejamento de ações de prevenção de doenças e de estratégias voltadas para a promoção da saúde da população. Queremos contribuir com informações para ações de vigilância em saúde ambiental”, analisa Heloísa, adiantando que o trabalho foi apenas um embrião do que ainda pretende estudar. “Essa tese me deixou com mais perguntas que respostas. A ideia é seguir adiante, até porque é um tema muito relevante para a região”.
Professora do Bacharelado Interdisciplinar em Saúde, vinculado ao Instituto de Saúde Coletiva (Isco), Heloísa pretende, nas próximas etapas, trabalhar com grupos de mães e filhos, além de determinar quais são as espécies de peixes que têm maior relação com a exposição mercurial. “Também queremos fazer um levantamento mais específico da saúde das pessoas, incluindo dados de análises clínicas e com a participação de um médico ou um enfermeiro na equipe. Precisamos de um panorama mais aprofundado acerca do estado de saúde desses indivíduos. É estudo para uma vida inteira”, estima.
A tese de Heloísa faz parte de um projeto interdisciplinar intitulado “Estudo integrativo da saúde ambiental e humana diante dos efeitos nocivos da exposição ao mercúrio na região do rio Tapajós: perfis epidemiológicos, genotóxicos e fisiomoleculares”, que contou com financiamento da Fapespa (Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas do Pará) e foi desenvolvido no Laboratório de Genética e Biodiversidade da Ufopa, sob orientação do professor Dr. Luís Reginaldo Rodrigues e coorientação da professora Dra. Delaine Sampaio. Além disso, contou com o apoio dos docentes Dr. Ricardo Bezerra, do Laboratório de Bioprospecção e Biologia Experimental, que ajudou com as análises mercuriais; e Dr. Anderson Meneses, do Laboratório de Inteligência Computacional, que deu suporte na área estatística. Além deles, colaboraram os professores Dr. Jorge Porto, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e Dr. Carlos Passos, da Universidade de Brasília (UnB).

Fonte: Ascom/Ufopa

José colares

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.