segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

SÍNDROME DE ESTOCOLMO AMBIENTAL: QUANDO OS DEFENSORES DO TURISMO SÃO OS QUE O DESTROEM

   Por Fábio Maia – Colunista de O Impacto

“Não há tirania pior que a exercida sob o pretexto de fazer o bem” – C.S. Lewis

Existe um fenômeno psicológico conhecido como Síndrome de Estocolmo, quando a vítima desenvolve laços emocionais com seu sequestrador e passa a defendê-lo. É irracional, contraditório e destrutivo, mas acontece. Em Santarém, especialmente em Alter do Chão, testemunhamos diariamente uma variante desse fenômeno: a Síndrome de Estocolmo Ambiental. Pessoas que dependem do turismo para sobreviver defendem fervorosamente as mesmas políticas e restrições que sistematicamente destroem o potencial turístico da região.

Defendem quem os mantém pobres. Aplaudem quem inviabiliza seus negócios. Repetem mantras ideológicos que condenam suas próprias famílias ao subemprego sazonal. E quando alguém aponta a contradição, são acusados de não amar a natureza ou querer destruir o paraíso. É uma armadilha psicológica perfeita, e os números provam que está funcionando para manter o turismo regional na mediocridade.

OS NÚMEROS QUE REVELAM O POTENCIAL DESPERDIÇADO

O turismo em Santarém hoje representa entre 4% e 7% do PIB municipal, com forte concentração em Alter do Chão, sazonalidade elevada, baixa formalização e renda média inferior ao agronegócio e logística. Compare isso com regiões turísticas estruturadas: Gramado tem cerca de 40% do PIB proveniente do turismo, com ocupação hoteleira média de 70-80% anual e milhares de empregos formais. Bonito representa aproximadamente 60% do PIB municipal, recebe mais de 300 mil visitantes por ano e tem renda per capita tripla da média estadual.

A região oeste do Pará deveria estar nesse patamar. Tem atributos naturais superiores aos dois exemplos, reconhecimento internacional em Alter do Chão e localização estratégica. Mas está preso em 4-7% do PIB, com empregos sazonais e infraestrutura precária. Por quê? Síndrome de Estocolmo Ambiental.

A CONTRADIÇÃO PERFEITA

O turismo precisa de infraestrutura hoteleira de qualidade, gastronomia diversificada, serviços complementares estruturados, infraestrutura urbana adequada e eventos que reduzam a sazonalidade. Mas os autodeclarados defensores do turismo bloqueiam sistematicamente cada um desses elementos. Dizem que hotéis vão destruir a natureza, que resorts são especulação imobiliária e tornam o licenciamento impossível para novos empreendimentos. Inviabilizam desenvolvimento gastronômico com restrições a construções e burocracia para regularização. Sufocam serviços complementares e impedem melhorias na infraestrutura urbana, tratando saneamento como agressão e pavimentação como urbanização predatória.

O resultado é matemático: turismo que poderia representar 30-40% do PIB fica preso em 4-7%, com empregos sazonais mal remunerados e potencial completamente desperdiçado.

A ÚLTIMA RECOMENDAÇÃO: CAVANDO A PRÓPRIA COVA

O exemplo mais recente dessa síndrome é a recomendação do Ministério Público para criar mais uma Unidade de Conservação federal em Alter do Chão. Se implementada, novos empreendimentos hoteleiros se tornarão praticamente impossíveis, ampliações levarão anos de licenciamento federal, e qualquer melhoria estrutural será burocratizada ao extremo. Para restaurantes e comércio, expansões serão inviabilizadas e a formalização desestimulada. A infraestrutura urbana enfrentará ainda mais anos de estudos para qualquer melhoria em saneamento, pavimentação será tratada como impacto ambiental e até iluminação será questionada como perturbação da fauna.

O capital privado fugirá, empreendedores desistirão e qualquer possibilidade de melhoria será inviabilizada. Traduzindo de forma clara: a UC mata exatamente o turismo que dizem querer proteger.

A PSICOLOGIA DO REFÉM

Por que pessoas que dependem do turismo defendem políticas que o destroem? O primeiro mecanismo é o medo instrumentalizado: “se não aceitarmos a UC, vão permitir destruição total”. É o argumento do sequestrador criando uma falsa dicotomia entre UC sufocante ou devastação completa, omitindo que existe desenvolvimento turístico planejado e sustentável sem necessidade de tutela federal. O segundo é a culpa implantada: “querer desenvolvimento vira sinônimo de destruir a natureza, prosperidade vira ganância e quem questiona é estigmatizado”.

A dependência criada faz com que as pessoas construam identidade baseada em não fazer ao invés de fazer, orgulhando-se de ser intocado em vez de próspero. O salvador externo infantiliza a população local e nega sua capacidade de decidir o próprio futuro, transferindo poder para agentes externos que não vivem aqui, mas sabem o que é melhor. Por fim, pequenos privilégios como a temporada alta limitada e empregos sazonais ensinam a ter medo de buscar mais, consolidando o conformismo programado. O resultado é a síndrome completa: vítima defende sequestrador, pobre defende quem o mantém pobre, dependente protege quem o controla.

GRAMADO E BONITO PROVAM QUE É POSSÍVEL

A tese ambientalista é que desenvolvimento turístico destrói o ambiente, mas os fatos dizem o contrário. Gramado investiu massivamente em infraestrutura hoteleira privada, desenvolveu gastronomia diversificada e criou eventos o ano inteiro. O resultado ambiental foi uma cidade limpa e organizada, com áreas verdes preservadas e valorizadas, controle rigoroso de construções e certificações ambientais. Economicamente, o turismo representa cerca de 40% do PIB municipal com milhares de empregos formais bem remunerados e renda per capita alta.

Bonito estruturou turismo de natureza com controle de visitação rigoroso e certificação ambiental obrigatória. Os rios estão preservados e monitorados, a fauna protegida e o controle de impacto é efetivo. O turismo representa aproximadamente 60% do PIB municipal, recebe mais de 300 mil visitantes por ano e a renda per capita é tripla da média estadual. A lição é inequívoca: desenvolvimento turístico estruturado melhora o ambiente porque gera renda para protegê-lo e cria interesse econômico na preservação.

ALTER DO CHÃO: O PARAÍSO MANTIDO NA POBREZA

Alter do Chão tem atributos naturais incomparáveis: praias de água doce únicas, Rio Tapajós com águas cristalinas, floresta amazônica preservada e biodiversidade sem igual. A localização é estratégica com acesso por Santarém, aeroporto próximo e porto fluvial. O reconhecimento como Caribe brasileiro e destaque internacional já existe. Se desenvolvido como Gramado ou Bonito, o turismo poderia representar 30-40% do PIB local gerando entre 8 e 12 mil empregos formais com renda média de 3 a 4 mil reais e recebendo de 500 mil a 1 milhão de visitantes por ano.

Mas está preso em 4-7% do PIB, com empregos sazonais e informais, infraestrutura precária e potencial completamente desperdiçado. Por quê? Porque os defensores do turismo bloqueiam sistematicamente tudo que permitiria desenvolvê-lo.

A CONTRADIÇÃO IDEOLÓGICA EXPOSTA

Dizem querer proteger Alter para o turismo, mas bloqueiam investimentos em infraestrutura turística. Falam em turismo sustentável, mas impedem certificações, treinamentos e profissionalização. Prometem gerar renda para a comunidade, mas mantêm empregos sazonais, informais e mal remunerados. Defendem desenvolvimento planejado, mas bloqueiam qualquer planejamento que inclua crescimento real. Querem turismo de qualidade, mas impedem hotéis qualificados e mantêm infraestrutura precária. Dizem que a comunidade deve decidir seu futuro, mas impõem decisões via MP, ONGs externas e burocracia federal.

O resultado é contradição total entre discurso e prática, entre o que dizem querer e o que efetivamente fazem.

QUEM SE BENEFICIA COM TURISMO TRAVADO

ONGs internacionais ganham porque nossa região intocada rende doações e a narrativa de paraíso preservado é valiosa para captação de recursos. A burocracia ambiental se beneficia porque UC federal significa orçamento, cargos e controle, mantendo sua relevância institucional. Elites que já se estabeleceram preferem competição limitada para manter posições de monopólio informal com mão de obra barata disponível. Ideólogos urbanos confirmam sua narrativa anti-desenvolvimento podendo visitar o paraíso intocado nas férias sem precisar viver da renda local.

Quem perde são as famílias que dependem de emprego sazonal, os jovens sem oportunidades que emigram, os empreendedores locais bloqueados e toda a população que poderia prosperar, mas é mantida na dependência.

A SAÍDA DA ARMADILHA

Romper a Síndrome de Estocolmo Ambiental exige primeiro reconhecer que defender UC é defender bloqueio ao turismo sem meio-termo. Depois é preciso olhar para modelos que funcionam e questionar por que não podemos fazer o mesmo que Gramado e Bonito fizeram. Calcular o custo real da proteção em termos de renda familiar perdida e desenvolvimento regional desperdiçado. Identificar quem realmente se beneficia seguindo o dinheiro até ONGs, burocratas e ideólogos que não vivem aqui, mas decidem nosso futuro. Exigir protagonismo local rejeitando tutela externa e recomendações que viram ordens. Propor alternativa concreta de desenvolvimento turístico planejado sem UC federal sufocante, mas com regulação local, certificação e controle que permita crescer e prosperar.

O MODELO QUE DEVERÍAMOS SEGUIR

Alter do Chão precisa de governança local através de conselho gestor com representação real da comunidade e decisões por maioria, não por recomendação imposta. A infraestrutura deve incluir hotéis de médio e alto padrão com controle ambiental rigoroso, saneamento básico completo, vias pavimentadas em áreas urbanas e energia confiável. A regulação precisa ter zoneamento claro, certificação ambiental obrigatória, mas viável, licenciamento com prazos máximos definidos e fiscalização efetiva sem burocracia infinita.

A capacitação local deve incluir treinamento de guias, cursos de hotelaria e gastronomia, profissionalização de serviços e incentivo ao empreendedorismo. A diversificação econômica virá com eventos o ano inteiro, turismo de aventura e cultural, gastronomia diferenciada e experiências além da praia. O resultado esperado é turismo representando 30-40% do PIB, dez mil empregos formais, renda média de 3500 reais, ambiente mais preservado porque vira recurso econômico e comunidade próspera em vez de dependente.

Isso é possível porque Gramado, Bonito e centenas de destinos turísticos no mundo provaram. Mas exige romper com a síndrome, rejeitar tutela externa e exigir o direito ao desenvolvimento.

PORTANTO…

A Síndrome de Estocolmo Ambiental é real e está documentada nos dados. Pessoas que dependem do turismo defendem políticas que o destroem enquanto aplaudem recomendações que inviabilizam seus negócios e repetem mantras que condenam suas famílias à pobreza sazonal. Os números provam que o turismo representa 4-7% do PIB quando poderia ser 30-40%, com empregos sazonais quando poderiam ser formais, renda baixa quando poderia ser alta e infraestrutura precária quando poderia ser qualificada.

A contradição é gritante entre dizer que defende turismo e bloquear seu desenvolvimento, entre querer renda e impedir investimentos, entre falar em comunidade e impor tutela externa. Quem se beneficia não é a população local, mas ONGs internacionais, burocracia ambiental e ideólogos urbanos. Modelos que funcionam como Gramado e Bonito provam que prosperidade e preservação são complementares quando há liberdade para empreender.

Alter do Chão merece ser o Gramado da Amazônia porque tem atributos superiores, reconhecimento maior e potencial imensurável. Mas está preso em 4-7% do PIB porque os defensores do turismo são exatamente os que o destroem. Síndrome de Estocolmo Ambiental: quando a vítima ama seu algoz, quando o pobre defende quem o mantém pobre, quando o potencial é desperdiçado em nome de ideologia.

Até quando?

Fábio Maia é pesquisador em desenvolvimento regional e das questões amazônicas, e é articulista do jornal O Impacto. Escreve semanalmente sobre política, ambientalismo e soberania nacional. Também é autor do livro “O Ambientalismo como Nova Forma de Colonialismo na Amazônia”, que você pode adquirir clicando aqui.

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