| Por: José Wilson |
Gostei bastante e ainda estou degustando a excelente “Memória de Santarém” da lavra do Lúcio Flávio Pinto.
Fatos que eu vivi pessoalmente, inclusive como cronista do Jornal de Santarém, do Sr. Arbelo, filho do Isoca e neto do Visconde da Várzea (Vicente Malheiros) um inspirado crítico de costumes que a cidade precisa conhecer melhor.
Entretanto, meu amigo Lúcio, o episódio que você relata que se passou comigo e minha bicicleta foi inventado justamente por meu avô e seu espírito jocoso e não é verídico.
Na página 89 de tua “Memória”, está escrito que fugi com a bicicleta nos ombros... claro que estou dando gostosas gargalhadas. Mas, resumo agora o que se passou.
Era uma tarde bonita e calorenta como são as tardes santarenas. Eu havia sido operado pelo competente Dr. Everaldo Martins e estava no hospital do SESP fazendo curativo, quando ali mesmo escutamos que o Veloso havia tomado a rádio e se preparava para invadir a prefeitura e restitui-la ao teu pai, Elias Pinto, o Barra Limpa vencedor das eleições.
Como todo jovem, eu era curioso. Tinha apenas 22 aninhos. Então peguei minha bicicleta (só mesmo sendo um garoto para andar de bicicleta depois de operado...) e fui em busca da movimentação toda. Quando cheguei ali perto do Hotel Uirapuru vi a massa humana que se dirigia, liderada pelo Veloso, no rumo da Prefeitura.
Comparei aquilo com a TOMADA DA BASTILHA, juro! De uma hora para a outra, em minha imaginação, Santarém virou Paris e eu estava assistindo a história.
Empolgado e, de bicieleta e tudo, infiltrei-me no meio do povo que ia cantando, gritando palavras de ordem.
Chegando ali por perto da Casa de Saúde vi que alguns soldados aguardavam a multidão de metralhadoras e fuzis.
Recentemente eu havia feito o serviço militar e sabia como evitar balas. Corri, então, com bicicleta e tudo e me escondi, numa mangueira frondosa quase em frente àquele hospital, creio que de fronte da casa do dr. Pena.
Fui um espectador privilegiado. Vi a multidão peitar a polícia que, primeiro, atirou para cima. Como o povo persistisse, vieiram os tiros. Feriram Veloso (que Brechó enrolou numa providencial bandeira nacional) com um golpe de baioneta. Teu pai, a mim me parece, subiu por dentro da casa do Sr. Roosevelt para salvar a pele. Alguns cidadãos, dos quais me lembro o nome apenas de um, o Cujubinha (tenho ainda na memória a fisionomia dele. Negro, baixinho, bigodinho) foram alvejados. Uns cairam para a praia, outros pularam no rumo do rio e a maioria correu apavorada.
E eu ali protegido pela mangueira, minha bicicleta no chão. Quando passou por mim o Edemburgo Moura (aquele cearense simpático, vermelhão e forte como um touro, que foi vereador) chorando, passo apressado e emocionado, pensei. É hora de sair daqui.
Mas saí calmamente, voltei até a frente do Bar Mascote e fui o primeiro repórter a contar tudo o que havia visto para o Joaquim da Costa Pereira que, como todo mundo estava ávido de notícias. O resto já sabem.

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